Caleidoscópio

Depois de anos isolado no vácuo da solidão o amor lhe bate a porta. Difícil de definir se é a primeira vez que se apaixona ou se cada paixão é diferente da outra. Sempre acostumado a sentir tudo em excesso, desta vez não é diferente. O misto de sentimentos, às vezes a raiva e a inveja também entram na dança, o deixa confuso. É quase como se fosse um sofrimento, é quase como se doesse. Será que amar realmente dói? Será que não? Mas então o que seria esse aperto no peito? Esse buraco no estomago? E ao mesmo tempo, em meio a inexplicável dor, vem a vontade de ficar perto, de não se separar nunca. E quando separados por poucas horas a saudade e a nostalgia, com se houvessem anos desde o último encontro, inundam a alma. Às vezes quer falar tantas coisas, mas o único som que sai de sua boca é o do “Eu te amo”.  Às vezes não quer dizer nada, mesmo assim na sua mente gira, em meio tantas outras coisas, o tanto de amor que existe dentro dele. É como se o sentimento crescesse, crescesse e aparentasse que em algum momento irá explodir. Será que ele vai explodir? Será que vai parar de ter vontade de chorar? Será que algum dia os espaços de tempo longe vão parar de doer? Será que o coração vai se conformar? Tantos serás, tanta insegurança, tanto medo de se entregar… Mas ao refletir percebe que já se entregou e já está tão longe da costa que se esse barco virar, talvez ele venha a se afogar.

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Madrugada

Era madrugada. Os barulhos do ar condicionado e da janela de metal que tremia tiravam sua concentração das tentativas frustradas de voltar a dormir. Havia algum tempo que ele não sabia o que era ter uma noite inteira de sono. Havia algum tempo que ele era desperto por um fantasma irritante. Fantasma este que sussurrava em seu ouvido e ao despertá-lo desvanecia.
Resolveu que não dormiria mais, como sempre resolvia às 4:30 quando o galo começava a cantar.
Levantou-se e foi de encontro a sua melhor amiga da madrugada, a geladeira. Assaltá-la nessas madrugadas insones era um dos poucos prazeres que ainda lhe restavam.
Sentou-se na companhia de um pudim feito no final de semana e chorando o comeu enquanto pensava no seu peso e numa solução para o fim de seu sofrimento.

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Texto 9º

Ficou toda borrada, manchada, mas estava se sentindo linda. Pintou o cabelo sozinha e pelos cálculos tinha conseguido chegar ao tom que queria. A menina da novela tinha quase o mesmo tom e os carinhas e as outras meninas gostavam muito, nessa coisa de adolescência e liberdade ela estava mesmo era interessada em chamar a atenção dos dois. Manchou algumas toalhas brancas e mais a blusa do colégio, mas estava ótimo. Acordou mais cedo que o eventual para se arrumar, secador e um pouco de chapinha. Vestiu uma calça nova depois de alguma insistência com a mãe que separa roupa de casa de roupa de sair de roupa de colégio. Terminou de se arrumar na rua sem saída ao lado do colégio, pouco rímel, pouco blush e um batom pra dar vida. Caminhou pelo portão de entrada como se fosse uma passarela, sentiu o olhar dos outros sobre ela, se excitou um pouco, correu até as amigas que não acreditavam que a mãe a tinha deixado fazer aquilo. Chamou atenção no intervalo, Murilo e Otávio queriam ficar com ela e Cristina também, beijou os três em momentos diferentes do dia. Murilo atrás da quadra e não foi bom, estava suado e tinha o rosto bem áspero. Otávio foi gentil e quis pegar na mão, mas ainda tinha Cristina. Foi no banheiro das meninas que teve a gélida sensação que lhe subia do estômago até a boca, ainda não sabe se foi o gosto da bala de cereja ou o ato controverso de beijar meninas, mas vontade era tamanha que foi pra casa sabendo a cor do sutiã da conquista. Na saída a mãe a esperava com o carro estacionado próximo ao portão. 

– Seus amigos gostaram do cabelo?
– Todo mundo ama ruivas, mãe.

Para preta, porque ela merece essa ruiva.

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Anália

Anália se levantou da cama de colchão duro e foi passar o café amargo que ela preferia, se sentou no banco da varanda que ela preferia com a caneca esmaltada transbordando de café em uma mão e um pedaço do queijo que preferia na outra. Sentiu a brisa fria da seis manhã em silêncio acompanhada da solidão de uma casa cheia de vazio que o marido deixou há dois dias quando faleceu durante a noite no lado da cama que ela preferia. Observou como era a vista que ela sempre quis ter, o banco que Zé sentou por tantos anos era mais confortável e não doía as costas cansadas de uma vida de servidão cega ao amado marido. Ficou ali por horas até se assustar por ter perdido a hora de fazer o almoço, mas pra quem? Acalmou-se e voltou a observar a vista de Zé, a mangueira da rua ficava mais vistosa dali e o sol do meio dia não a alcançada, descobriu assim que aquela era a vista que preferia. Levantou-se quando deu fome, comeu apenas um pedaço de pão seco com mais café amargo. Quando Zé estava ali o café tinha que ser claro com chá e doce como rapadura, de sobremesa chupou uma laranja lima com muita satisfação e deixou a louça suja por ali mesmo. Na sala da casa pequena de um casal sem filhos ela ligou a TV com volume que incomodava os ouvidos para deixar o som ganhar os cômodos. Sentiu-se só… Com o fim da tarde arrastou seu corpo idoso e cansando para o quarto. Sentou na cama do lado que preferia, o lado de Zé, e ao olhar para o outro não viu ninguém… A tristeza ajudou com que ela se levantasse, caminhou para o lado que dormiu por mais de 60 anos e de lá observou o de Zé.
– Boa noite, meu velho
Fechou os olhos e dormiu profundamente.

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Álcool Para Alma

Para Ana C, o sorriso que iluminou minhas manhãs por tanto tempo.

Sempre achara a vida algo muito complexo, por vezes gostava dela, por muitas outras não. Nunca quis ser aquele chato que sempre reclama, que nunca está satisfeito… acabou se tornando exatamente ele.  Tornou-se adepto dos antidepressivos, e a vida não tinha graça. O sexo era estranho com qualquer um, homem ou mulher, tanto fazia era vazio. Quer dizer, às vezes não era vazio, existiu uma pessoa que realmente valeu a pena, mas ela se fora. Estava agora, sozinho, sentado numa esquina com uma garrafa de cerveja pensando que nunca ia ser feliz. Resolveu que não valia a pena pensar e se afogou num mar de álcool.

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Romance

Elas se despediram mais uma noite, as horas de distâncias fazia das mensagens de textos portadoras daqueles sentimentos que são despertos por abraços e beijos. Nesse mundo pós-moderno nada mais coerente que tentar viver um romance das antigas intermediado pela tecnologia, e assim, de uma atualização a outra que tudo acontecia e crescia até não caber mais na infinita world wide web e ficar cafuna, piegas e de corpo presente.

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Conto Moderno

Passava os dias no marasmo e culpava a todos menos a si mesmo. Reclamava de tudo, principalmente da dor no joelho. Seus poucos amigos o chamavam de senhor, uma brincadeira que odiava. Havia descoberto um game novo, a única coisa que realmente gostava e se empenhava em viver uma segunda vida mascarado por um id falso e um nome que não era o seu. Esteve muitos dias enfurnado dentro do quarto, comendo biscoitos e reclamando de dores, um dia depois de salvar uma princesa de um dragão resolveu sair para comprar refrigerante para comemorar. E foi lá que viveu a grande aventura, na fila ela sorria para a senhora da frente, os cabelos ruivos e a pele clara. Lhe lembrou um por de sol que viu num filme. Ela virou diretamente para ele e lhe perguntou o nome entre seus sorrisos luminosos.
– Nin0Pix. – respondeu com o nome do seu char.
Mas ela riu, com ele e não dele, e ofereceu o seu. Carolina, Ah Carol! Pegou também a id de uma rede social famosa e depois de muito conversar com Mauro foi ela quem o convidou para um sorvete num fim de tarde. E pela primeira vez uma princesa salvou um herói.

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Tarde (tédio) de Domingo

Sobre efeito do mais devastador tédio de domingo ele resolveu ler os classificados do jornal de umas três semanas atrás que estava jogado ao lado do sofá porque a faxina do pequeno apartamento de dois quartos e sem área de serviço estava atrasada a mais de um mês por preguiça. Passou o olho por alguns anúncios de prostitutas que garantiam coisas que ele jamais pensará existir, excitado com o erotismo se masturbou ali mesmo, não seria interrompido pelo colega de quarto que passava todos finais de semana religiosamente na casa da namorada. Entre Jasmim e Verônica escolheu a que garantia o melhor boquete, sempre foi muito tímido para pedir a namorada que o fizesse e por isso sua experiência sexual nunca passará de um papai e mamãe muito mal feito que na maioria da vezes terminava com ele se satisfazendo sozinho no banheiro, a namorada nunca teve muita paciência para que ele a acompanhasse.
Verônica chegou cerca de duas horas depois que ele ligou, foi tempo suficiente para dar uma arrumada por cima no apartamento, estava muito ansioso, como no anúncio não tinha foto o maior medo do garoto era que a acompanhante fosse um travesti. Quando ele abriu a porta se deparou com uma mulher pouco mais velha que ele, linda e voluptuosa. Primeiro ele ofereceu Coca-Cola e misto quente, ela já foi longo dizendo que o tempo estava correndo e ele nervoso não sabia o que fazer. Convidou a se sentar no sofá e Verônica claramente sem paciência perguntou se ele era virgem, mais constrangido que ofendido a resposta foi “Eu tenho 18 anos”. Eles fizeram sexo por 2 horas, depois Verônica aceitou o misto-quente com Coca-Cola enquanto conversavam sobre o curso de engenharia que o menino estava começando. O programa ficou em 250 reais que ele passou a separar mensalmente.

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Bonzinho

Não era como se eu estivesse me esgotado, é que naquela hora eu não queria mais. Ele me olhava com vontade esperando por uma brecha que fosse e fingi que havia dormido. Era o décimo dia que usava uma inconveniente dor de cabeça para tampar a falta de interesse que eu sentia em transar. Não gostava de mais nada nele, principalmente do gosto de seu beijo e o perfume que me embrulhava o estomago de tão doce. O problema todo é que ele é um cara legal demais, me respeitava como nenhum outro cara que eu já namorei, bem do tipo ‘nice guys finish last’, tanto que no dia em que me pediu em casamento eu aceitei sem hesitar e guardei essa falta de hesitação no coração como se isso fosse um sinal de amor, mas era só a minha súbita vontade de fazer algo diferente e foi de mãos dadas com a minha covardia prolongada que me fez assinar os papeis do civil.

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Maior Mistério

Meu medo não é de altura, nem de avião. Tenho medo das pessoas, do que elas podem me fazer. Não diretamente, porque o ser humano é elaborado. Eles pensam e tramam. Medo de morte pra que? Medo de vida. Não poder confiar em qualquer um, ou em ninguém. Todos tem um preço, uma motivação e este é meu maior medo. Onde vai parar a boa conduta se te oferecerem algo que queiras? Medo de viver em um lugar, onde o exterior pesa mais, onde vale mais o que se tem em mãos do que o que se guarda no coração.
É triste, mas vem acontecendo, somos um enigma que ninguém conseguiu decifrar, o maior mistério do mundo, não é só homem muito menos só mulher, vale a ambos a todos. O ser humano está doente, ou atrevo-me a dizer que somos a doença que aflige o mundo.

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